Opinião/ Com Som: Os 8M€ parados na Câmara Municipal do Cartaxo
🕒 11:00h
Com o mesmo dinheiro com que há poucos anos enchíamos um carrinho de compras, hoje compramos muito menos. Nas obras públicas acontece exatamente o mesmo. Aliás, é ainda pior. Quando uma necessidade urgente é adiada durante anos, pagamos duas vezes: primeiro pelo atraso; depois porque tudo fica mais caro.
Dos mais de 9 milhões de euros que herdou do executivo anterior, a Câmara Municipal do Cartaxo colocou 8 milhões de euros parados no banco. Aliás, estão a render. Mas a taxa de juro é de 2% e os custos de construção aumentam quase 6% ao ano. Por cada euro que ganhamos, perdemos 3. Por mais voltas que queiram dar, não podemos chamar isto de bom negócio. Não o é.
Segundo dados do INE, os custos de construção aumentaram cerca de 33% desde 2021 e os custos do trabalho subiram mais de 43%. E a energia continua a encarecer. Se este dinheiro continuar parado, mantendo-se o ritmo recente de aumento dos custos de construção, obras que hoje custam 8 milhões de euros poderão ultrapassar os 11 milhões até 2029.
Quando se pergunta porque não se alcatroam mais estradas, tapam buracos ou arranjam passeios, a resposta é quase sempre a mesma: não há dinheiro. Mas o dinheiro existe. Está parado numa conta bancária. O problema não é financeiro, é uma opção política de não as executar. E essa opção tem um custo que os munícipes estão a pagar todos os dias.
Sim, é verdade, não poderemos utilizar os 8 milhões de uma só vez. Mas sim, podemos e devemos utilizar 3 milhões para responder às necessidades mais urgentes. E utilizamos os restantes fundos e as receitas futuras para assegurar os investimentos dos próximos anos. Nenhuma empresa deixaria milhões parados a render 2% enquanto os custos das obras sobem 6% ao ano. Seria visto como má gestão. No setor público não deveria ser diferente.
Toda a gente sabe que, quando um produto vai subir de preço, comprar mais tarde é uma desvantagem. Então porque haveríamos de fazer isso com investimentos de milhões? Porquê esperar pelas receitas do futuro para fazer obras do presente? E guardar dinheiro do presente para fazer obras no futuro? Porque não usamos o dinheiro que temos agora para fazer as obras que precisam de ser feitas já? E usamos as receitas do futuro para realizar as obras do futuro?
No fundo, ter milhões parados a render quase nada enquanto existem necessidades urgentes por resolver é como guardar dinheiro no banco enquanto a chuva nos entra pelo telhado. Pois bem, está a chover e o dinheiro está a perder valor. O melhor será mesmo pegarmos nas esfregonas, porque a política de desvalorização do nosso dinheiro parece que não vai mudar. Entristece-me, pois é por coisas destas que depois nos queixamos que o Estado não sabe usar o dinheiro dos nossos impostos. Não tem que ser assim. E não deveria ser assim.
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Opinião de: Ricardo Magalhães
Formado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, tem vindo a consolidar uma carreira marcada pelo rigor, capacidade de liderança e proximidade às pessoas. O seu percurso profissional distingue-se pela experiência em Inteligência Artificial aplicada aos setores da Indústria e Energia, bem como um forte envolvimento na vida comunitária e associativa do Cartaxo. Atualmente vereador na Câmara Municipal do Cartaxo desde 2025 pelo Partido Socialista, foi também deputado na Assembleia de Freguesia do Cartaxo e Vale da Pinta (2017-2021) e na Assembleia Municipal do Cartaxo (2021-2025).