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Opinião - Uma andorinha não faz a Primavera…

🕒 01:00h







Um dos mais gravíssimos casos sucedidos dentro das nossas forças de segurança está a abalar, inevitavelmente, a reputação e o prestígio institucional da Polícia de Segurança Pública. Mas a imagem da Polícia de Segurança Pública não pode ser denegrida por um caso desta natureza, tendo em consideração que vinte mil profissionais, todos os dias fazem um excelente serviço público em nome da nossa segurança e da manutenção da ordem pública. Como em todas as profissões, há e haverá sempre, maçãs podres e, como tem ser, quem não quiser apodrecer a cesta inteira, tem de retirar a maçã podre que está lá.

Aliás, uma andorinha não faz a primavera, e não podemos aceitar a ideia de que todos e todas as polícias representam o que aconteceu na Esquadra do Rato.

Li e ouvi múltiplos comentários, inclusivamente, de pessoas aparentemente sábias no assunto, e não posso permitir que algumas delas exibam na praça pública uma operação de contra-informação que afete toda a estrutura das nossas forças de segurança. Bem sabemos que as nossas forças de segurança têm por dever defender a legalidade democrática, a justiça e garantir os direitos, liberdades e garantias constitucionalmente previstas. Os elementos policiais envolvidos também o saberão. A Polícia de Segurança Pública e a Guarda Nacional Republicana recrutam cidadãos na sociedade civil que são filhos de nossos conhecidos, que nos são familiares ou amigos próximos, e portanto, não caiem das nuvens sempre que o Estado opera um concurso público de ingresso. São cidadãos provenientes de localidades do território português inteiro, cada um com as suas condições pessoais e sociais e por isso, diferentes entre si. Ouvi que o problema estava nos requisitos de admissão às nossas forças de segurança. Nada mais errado. Podemos aqui recordar um conjunto de casos com menor impacto ao longo das três últimas décadas que nunca colocaram em causa esses mesmos requisitos. Por outro lado, um processo de seleção e recrutamento entre milhares de candidatos torna difícil, senão impossível, admitir apenas e só as boas maçãs. Há sempre candidatos admitidos de difícil despiste. Cabe aos profissionais em exercício na EPPSP/CFGNR ter treino suficiente para perceberem comportamentos que lhes permitam sinalizar, durante a formação, casos suscetíveis de virem a comprometer a imagem das suas instituições. Não nos podemos esquecer que estes jovens que ingressam nas nossas polícias são fruto da nossa massa humana societária e, como sabemos, tem havido um problema, que se tem agravado, no processo de educação e formação proveniente quer das nossas escolas, quer das próprias circunstâncias familiares de cada um deles. Nas nossas escolas temos tido conhecimento de professores/as que têm sido agredidos/as, bem como de crimes cometidos entre alunos, o que são sintomas de uma sociedade que mostra indícios da degradação lenta de natureza social, moral, ética e até democrática no sentido lato do termo. Ora, isto é a base, são os alicerces da nossa massa humana, e por isso, é aqui que temos de investir fortemente para construir cidadãos com valores e bons princípios, cidadãos que tenham consciência social e humana, cidadãos que aprendem a respeitar o outro e a sua própria condição social, cidadãos que tenham noção da ideia da dignidade da pessoa humana.

Por isso, não posso aceitar que os requisitos de admissão, já de si exigentes, seja o cerne da questão. O processo de triagem tem sido rigoroso e talvez por isso milhares de candidatos vão ficando pelo caminho e as nossas forças de segurança vão tendo cursos com cada vez menos formandos. Além disso, alguns, durante a sua formação, são expulsos devido a comportamentos inapropriados.

Temos outras questões em avaliação que são cruciais discutir. Por exemplos, não é admissível que tenhamos subcomissários ou comissários, tenentes ou alferes, a gerir três ou mais esquadras em simultâneo! E essa realidade está muito presente nas nossas forças de segurança. Naturalmente que, torna-se difícil vigiar, monitorizar, controlar e lidar com tantas situações existentes nas esquadras que comandam. Talvez o problema também resida no excesso de oficiais subalternos e superiores dentro de gabinetes de núcleos, departamentos, quer dos comandos distritais, quer dos comandos metropolitanos, e bem ainda na direção nacional, nas escolas, nas academias e institutos, nos serviços sociais ou nos serviços de assistência de saúde. Não é muito aceitável que um recentemente formado oficial saia do ISCPSI ou da Academia, cujo custo unitário para o Estado é elevado, e uma das suas primeiras tarefas seja estar num gabinete a gerir expediente ou processos administrativos! Todos deveriam passar por, primeiramente, comandar esquadras e gerir pessoas.

Acolá também ouvi que o problema estava no facto dos jovens estarem longe das suas famílias e que estavam sem suporte social e emocional para conseguirem gerir o seu dia a dia profissional, que diga-se em abono da verdade, é cada vez mais exigente e intenso. É verdade que há muitos momentos de solidão e algumas dificuldades de integração num modelo social mais urbanizado, onde o ritmo e as exigências são mais intensos, uma vez que ocorrem milhares de situações mais conflituosas e traumáticas. Desafio qualquer um dos que aqui me lêem a passar uma noite inteira numa esquadra de polícia numa zona urbana de Lisboa ou arredores. Tenho uma novidade: o telefone não fica em silêncio mais do que meia hora seguida. As situações são tantas e tão diversas que é preciso muita robustez psicológica e emocional para gerir da melhor forma cada uma das chamadas. É muito fácil ser treinador de bancada. Talvez seja importante um programa de integração que envolva uma monitorização pela área de psicologia e que acompanhe o processo de desenvolvimento profissional dos profissionais da polícia numa primeira fase das suas carreiras, o que lhes daria instrumentos de gestão importantes para o seu dia a dia.

No ano de 2025 suicidaram-se treze polícias ( 10 na PSP, 2 na GNR e 1 na PM), sendo que todos os anos temos notícias de suicídios de polícias em números assustadores. A pressão institucional, a pressão social, a sociedade cada vez mais agressiva e com uma cultura de desobediência à autoridade legítima e legal cada vez mais profunda, a escassez de recursos humanos e materiais que leva a uma saturação mental e psicológica, a baixa qualidade de lideranças (porque ser comandante é fácil, ser-se bom líder é que já é para poucos), os fatores organizacionais e técnicos que levam à exaustão, os eventos traumáticos de cada circunstância, a prontidão das redes sociais para a condenação das polícias quando envolvidos em momentos tensos de reposição da ordem pública, a pressão da comunicação social sempre pronta para que a instituição ofereça um esclarecimento, o cansaço extremo em face da necessidade de gratificados por forma a que as instituições cumpram os seus acordos, tudo isto leva-nos a uma de duas consequências: externalização das emoções com ingredientes psicológicos e psicossociais depauperados em regime de sobrevivência aquando da sua atuação, expressando irritabilidade, raiva, ansiedade e stress, acabando por piorar a circunstância do próprio polícia se não tiver apoio psicológico, ou, decidir por desistir. E aqui desistir, significa uma de duas coisas: o suicídio (caso extremo) ou, como acontece, desistir da polícia. Restam os que sofrem de burnout, ansiedade e stress crónico os quais, vai andando por lá com a saúde mental em completa gestão corrente.

Nada disto desculpa o ato horrível e hediondo que ocorreu na esquadra do Rato. Mas este caso deverá servir para tirar muitas ilações, quer sejam organizacionais/institucionais, quer no âmbito das políticas públicas de segurança. Para além das circunstâncias criminais e disciplinares, é necessário perceber o contexto daquela esquadra em particular, e captar uma perspetiva muito mais pelo lado da prevenção do que pela mera sanção, esta sempre inevitável.

Como em tudo na vida, há bons e maus profissionais em várias áreas de atividade, agora o que não podemos fazer é fundir a instituição com casos pontuais que são intoleráveis e a todos os títulos condenáveis! Por isso, deixo aqui uma pal








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