Quando pensamos nas grandes conquistas da humanidade, é natural lembrarmo-nos das vacinas, da eletricidade, dos antibióticos, dos computadores ou da exploração espacial. No entanto, talvez a maior contribuição da ciência não seja qualquer uma destas descobertas extraordinárias. Talvez seja algo ainda mais importante: o método científico. Uma forma de pensar que nos permitiu aproximar-nos da verdade, corrigir erros e tomar melhores decisões.
A ciência distingue-se de muitas outras atividades humanas por uma característica fundamental: não importa quem faz a afirmação. O que importa é se essa afirmação resiste à evidência. O estatuto social, a riqueza, a popularidade, a ideologia ou a autoridade formal não determinam quem tem razão. Uma ideia vale pela sua capacidade de explicar a realidade, de ser testada e de resistir ao escrutínio. E quando novos dados demonstram que está errada, é corrigida.
Esta disposição para mudar de opinião perante os factos é uma das mais poderosas ferramentas alguma vez criadas pela humanidade. E é precisamente uma das que mais falta faz na política e no debate público.
Demasiadas vezes, a discussão política não gira em torno da pergunta “o que funciona?”, mas sim da pergunta “quem disse?”. As ideias são avaliadas pela sua origem partidária, pelo grupo que as defende ou pelo impacto emocional que provocam. O tribalismo substitui a análise. Os slogans substituem os argumentos. As convicções tornam-se mais importantes do que os resultados.
As consequências estão à vista de todos. Há políticas públicas que permanecem anos em vigor apesar de produzirem resultados medíocres. Existem investimentos e obras decididos pela sua popularidade imediata em vez da sua necessidade real. Debates sobre educação, saúde, habitação ou mobilidade transformam-se frequentemente em confrontos de narrativas, onde os dados são selecionados apenas quando confirmam posições pré-existentes.
Ao mesmo tempo, a polarização crescente está a transformar adversários em inimigos. Quem pensa diferente deixa de ser alguém com quem se discute e passa a ser alguém que se combate. Perde-se a curiosidade. Perde-se a capacidade de ouvir. Perde-se a possibilidade de aprender.
Naturalmente, o método científico não é perfeito. Os cientistas também erram. As hipóteses podem falhar. Os estudos podem ser incompletos. Mas existe uma diferença crucial: o próprio sistema foi concebido para detetar e corrigir erros ao longo do tempo. A dúvida não é uma fraqueza. É uma ferramenta. O contraditório não é um obstáculo. É uma necessidade.
Uma democracia mais próxima deste espírito seria uma democracia melhor.
Isso exigiria mudanças dos políticos. Exigiria humildade intelectual para reconhecer que ninguém possui todas as respostas. Exigiria transparência na utilização de dados e avaliações rigorosas das políticas públicas. Exigiria a coragem de admitir erros quando eles acontecem e a maturidade para mudar de posição perante novas evidências. Exigiria uma cultura de experimentação, aprendizagem e melhoria contínua.
Mas também exigiria mudanças dos eleitores.
Uma democracia saudável depende de cidadãos dispostos a pensar criticamente, a questionar slogans fáceis e a resistir à manipulação emocional permanente das redes sociais. Depende de uma maior valorização da competência em detrimento da agressividade. Depende da capacidade de ouvir opiniões diferentes sem assumir imediatamente má-fé. E depende da disponibilidade para alterar convicções quando os factos apontam noutra direção.
A ciência transformou profundamente a saúde, a tecnologia, a esperança média de vida e a qualidade de vida porque substituiu dogmas por evidências. Não eliminou os erros, mas criou mecanismos para os corrigir. Não eliminou as divergências, mas criou formas mais eficazes de as resolver.
Vale a pena perguntar: até onde poderia evoluir a nossa democracia se aplicássemos mais vezes os mesmos princípios?
Talvez uma das maiores provas de maturidade, tanto na ciência como na política, seja compreender que o objetivo não deve ser vencer uma discussão. Deve ser aproximarmo-nos da verdade. Porque ganhar um debate pode dar-nos razão por um dia. Mas encontrar a resposta certa pode melhorar a vida de todos durante décadas.
Opinião de Ricardo Magalhães
Formado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, tem vindo a consolidar uma carreira marcada pelo rigor, capacidade de liderança e proximidade às pessoas. O seu percurso profissional distingue-se pela experiência em Inteligência Artificial aplicada aos setores da Indústria e Energia, bem como um forte envolvimento na vida comunitária e associativa do Cartaxo. Atualmente vereador na Câmara Municipal do Cartaxo desde 2025 pelo Partido Socialista, foi também deputado na Assembleia de Freguesia do Cartaxo e Vale da Pinta (2017-2021) e na Assembleia Municipal do Cartaxo (2021-2025).