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Opinião / Os desconhecidos que conhecemos

🕒 2026-08-17 16:55h


Opinião / Os desconhecidos que conhecemos / Ricardo Magalhães





Há pessoas que cumprimentamos todos os dias e de quem não sabemos o nome. Não sabemos onde moram, quantos filhos têm, o que fazem quando saem do nosso campo de visão. Talvez nem saibamos se gostam de futebol ou de peixe grelhado. E, no entanto, se amanhã passarmos por elas e não as virmos, vamos reparar. É um dos pequenos mistérios da vida em comunidade: como é que alguém pode fazer parte da nossa rotina sem fazer verdadeiramente parte da nossa vida?

Há uns dias, dei por mim a pensar nisto depois de ouvir um episódio do podcast The Rest Is Science, de Hannah Fry e Michael Stevens, precisamente dedicado às pessoas que não conhecemos. O episódio chama-se All The People You Don“t Know e fala, entre outras coisas, de um conceito que tem um nome quase tão curioso como o próprio fenómeno: “estranhos familiares”.

A expressão foi usada pelo psicólogo Stanley Milgram, num trabalho publicado em 1972. A definição é simples: são pessoas que reconhecemos porque as vemos repetidamente, mas com quem não temos qualquer relação direta. Observação, repetição e ausência de interação são os três ingredientes para transformar um desconhecido numa presença familiar.

Milgram estudou o fenómeno em espaços urbanos e transportes públicos. Descobriu algo que, depois de pensado, parece óbvio: nós reconhecemos muito mais pessoas do que aquelas com quem realmente falamos. Há caras que passam a fazer parte da paisagem quotidiana. Pessoas que vemos tantas vezes que, de certa forma, deixam de ser anónimas, embora continuem a ser desconhecidas.

Mas numa terra pequena há uma particularidade interessante. Por aqui, muitas vezes, o estranho familiar acaba por evoluir. Começa com um simples “bom dia”. Depois de algum tempo já há um “então, tudo bem?”. E, passado algum tempo, talvez já saibamos o nome.

Não sabemos exatamente quando aconteceu. Não houve apresentação formal, não houve troca de contactos, não houve uma ocasião especial. A pessoa foi simplesmente entrando na nossa vida pela porta mais discreta possível: a repetição.

É curioso como o nosso cérebro parece gostar destas pequenas continuidades. A investigação sobre os “estranhos familiares” mostra que reconhecer rostos que encontramos regularmente pode contribuir para a sensação de familiaridade com um lugar e até para sentimentos de conforto e segurança nesse espaço.

Talvez seja por isso que uma terra não seja apenas constituída pelas pessoas que conhecemos. Também é feita pelas pessoas que reconhecemos. O homem que passa de bicicleta todas as manhãs. A senhora que vai caminhar sempre à mesma hora. O funcionário que vemos atrás do balcão. A pessoa que encontramos inevitavelmente no supermercado. O vizinho que não sabemos bem de onde é, mas a quem já dizemos bom dia há três anos. Há pessoas que fazem parte da nossa vida sem fazer parte da nossa história. E talvez isto seja mais importante do que parece.

Vivemos numa época em que temos centenas ou milhares de contactos, seguidores e “amigos” digitais. Podemos falar instantaneamente com alguém que está a milhares de quilómetros de distância e, ao mesmo tempo, passar uma semana inteira sem trocar uma palavra com a pessoa que vemos todos os dias.

A ciência das redes sociais e das relações humanas tem mostrado precisamente como são complexas e importantes para as nossas vidas estas ligações intermédias entre o completo desconhecido e o amigo próximo. Talvez devêssemos prestar um pouco mais de atenção a essas pessoas.

Não para transformar todos os desconhecidos em amigos. Nem para começar conversas intermináveis com quem só queria ir comprar pão. Às vezes, basta um “bom dia”. Porque há qualquer coisa de profundamente humana naquele pequeno gesto. Dizemos a alguém: eu reconheço-te. E, num mundo em que tanta gente pode passar por nós sem sequer levantar os olhos do telemóvel, talvez ser reconhecido seja uma das formas mais simples de pertença.

No fundo, uma comunidade também se constrói assim: não apenas através das amizades, das famílias e dos grandes encontros, mas através de centenas de pequenos reconhecimentos entre pessoas que, durante muito tempo, foram apenas desconhecidas. Até ao dia em que deixaram de ser.

* Opinião de Ricardo Magalhães

Formado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, tem vindo a consolidar uma carreira marcada pelo rigor, capacidade de liderança e proximidade às pessoas. O seu percurso profissional distingue-se pela experiência em Inteligência Artificial aplicada aos setores da Indústria e Energia, bem como um forte envolvimento na vida comunitária e associativa do Cartaxo. Atualmente vereador na Câmara Municipal do Cartaxo desde 2025 pelo Partido Socialista, foi também deputado na Assembleia de Freguesia do Cartaxo e Vale da Pinta (2017-2021) e na Assembleia Municipal do Cartaxo (2021-2025).










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