Opinião / Os números dizem-nos quantos morreram. Mas não nos dizem porquê.
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Depois da divulgação dos dados mais recentes da sinistralidade rodoviária, o Ministro da Administração Interna veio manifestar preocupação e vontade de combater aquilo que classificou como uma verdadeira “guerra civil” nas estradas portuguesas.
A preocupação é legítima. Mas não é nova.
Os dados disponíveis até meados de agosto deste ano apontam para 94.651 acidentes com e sem vítimas, 1.827 acidentes com feridos graves, 27.560 com feridos ligeiros e 302 vítimas mortais. Entretanto, foram fiscalizados presencialmente 1.154.586 condutores e, através de radar, mais de 8,2 milhões.
Foram registadas 201.634 infrações, destacando-se a velocidade, a condução sob influência do álcool e a ausência de inspeção. Até ao final de maio, 4.607 condutores foram detidos por condução sem habilitação legal e 8.428 por ultrapassarem a taxa de alcoolemia legalmente permitida. Desde junho de 2016, cerca de 3.991 condutores viram a sua carta de condução cassada.
Portugal tem uma estratégia definida para enfrentar este problema: a Visão Zero 2030, da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, alinhada com as orientações europeias e com a Declaração de Estocolmo. A meta é reduzir em 50% as mortes na estrada até 2030, tomando 2019 como ano de referência, e caminhar para zero mortes até 2050.
Os números mais recentes são conhecidos e preocupantes: dezenas de milhares de acidentes, centenas de mortos e milhares de feridos. Ao mesmo tempo, milhões de condutores são fiscalizados e centenas de milhares de infrações são registadas, sobretudo relacionadas com velocidade, álcool e inspeção dos veículos.
Mas há uma questão essencial que não pode ser esquecida:
Os números dizem-nos quantos morreram. Não nos dizem, por si só, porquê.
Uma infração não é necessariamente a causa de um acidente. Um condutor pode circular em excesso de velocidade e não provocar qualquer acidente. Outro pode cumprir o limite legal e, ainda assim, estar envolvido num acidente provocado por outras circunstâncias.
E se um condutor tiver álcool acima do permitido e, simultaneamente, circular em excesso de velocidade? Qual é a causa? Uma? Outra? Ambas? Ou existiram outros fatores — a estrada, o veículo, as condições meteorológicas, a distração, a fadiga ou o comportamento de terceiros?
Mais importante ainda: um acidente pode resultar da conjugação de vários fatores.
Velocidade. Álcool. Fadiga. Distração. Estado do veículo. Condições meteorológicas. Estado do pavimento. Geometria da estrada. Sinalização. Iluminação. Comportamento de outros utentes. Condições de tráfego. Tempo de reação. E tantas outras variáveis que podem concorrer, simultaneamente, para o mesmo resultado.
É aqui que a análise da sinistralidade deve ser muito mais rigorosa.
Estatística de fiscalização não é estatística de causalidade.
Por isso, talvez seja necessário alargar a composição e o conhecimento disponível na estrutura da Visão Zero 2030. Não para desvalorizar quem dela faz parte, mas para acrescentar quem conhece os acidentes por dentro: peritos forenses, especialistas em reconstrução de acidentes, averiguadores, concessionárias e representantes dos municípios e freguesias.
Quem está diariamente no terreno possui conhecimento que nenhuma tabela estatística consegue substituir.
Ao Ministro da Administração Interna cabe reforçar a fiscalização e a presença das forças de segurança. Mas segurança rodoviária não pode ser apenas sinónimo de punição. Prevenir é compreender. A política de segurança rodoviária não pode ser construída exclusivamente a partir da lógica da punição.
Precisamos de saber onde, quando e por que razão acontecem os acidentes. Precisamos de identificar os fatores determinantes e os fatores concorrentes. E precisamos de transformar cada acidente grave numa oportunidade para evitar o seguinte.
Existe também uma dimensão cultural.
Conduzir é um ato individual, mas as consequências são coletivas. Uma viatura pode ser um instrumento de mobilidade, mas, quando utilizada de forma irresponsável, pode transformar-se numa arma. Perdemo-nos, por vezes, na ideia, errada, de que a estrada é um espaço de competição e de afirmação de poder.
Precisamos de recuperar o civismo, a responsabilidade e o respeito pelo outro. Países como a Suécia, a Noruega ou a Dinamarca mostram que a segurança rodoviária também se constrói através de uma cultura de comportamento, previsibilidade e cooperação.
Entre 2019 e 2025, morreram mais de 4.000 pessoas nas estradas portuguesas.
Mais de 4.000 vidas.
Este número, por si só, deveria obrigar-nos a fazer mais do que contar.
Deveria obrigar-nos a compreender.
Porque a verdadeira segurança rodoviária começa muito antes do acidente.
E talvez esteja na hora de deixarmos de perguntar apenas quantos morreram.
E começarmos, finalmente, a perguntar: porquê?
* Artigo de Opinião da Responsabilidade de - Cândido Napoleão Marques. Licenciado em Ciência Política e Mestre em Ciências Policiais.