Opinião / A Destruição da Fachada da Escola Primária do Centro
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Opinião / A Destruição da Fachada da Escola Primária do Centro no Cartaxo
Na última semana, muito se tem falado sobre o alegado risco de desmoronamento provocado pelo falhanço da obra da Loja do Cidadão junto à Escola Primária do Centro. Não disponho de qualquer informação técnica que me permita confirmar essa possibilidade. Se existem riscos, devem ser avaliados e resolvidos. Mas esse não é, até ao momento, o problema central.
O verdadeiro problema começou no momento em que se decidiu construir, em frente a um dos edifícios mais emblemáticos do Cartaxo, uma Loja do Cidadão que destruiu a leitura da sua fachada, lhe retirou protagonismo e cortou quase por completo a perspetiva com que durante mais de um século foi admirada pelos cartaxeiros.
A Escola Primária do Centro não é apenas um edifício antigo. É um pedaço da memória coletiva da cidade. Foi ali que gerações de cartaxeiros — eu incluído — aprenderam a ler e a escrever. É um exemplo da arquitetura escolar do início do século XX e um marco na paisagem urbana do Cartaxo. A sua fachada não é um simples alçado; é património histórico, cultural e afetivo.
Por isso custa compreender como se decidiu erguer, precisamente diante dela, um edifício cuja arquitetura nada dialoga com a da Escola e que desrespeita completamente aquele conjunto urbano. Não há continuidade, não há respeito pela escala, não há enquadramento. Há apenas um volume de betão que esconde um dos edifícios mais bonitos do concelho e o reduz a um pano de fundo.
É como colocar um painel publicitário em frente a um monumento. O monumento continua lá, mas deixa de poder ser visto e apreciado na sua plenitude. A sua presença desaparece da paisagem urbana. É apagado da memória visual da cidade.
Não está aqui em causa a necessidade de uma Loja do Cidadão. O Cartaxo precisa de serviços públicos modernos e acessíveis. A questão é outra: precisava de ser naquele local? Precisava de ser daquela forma? Uma obra pública não deve limitar-se a cumprir uma função; deve também respeitar o lugar onde se insere.
As cidades constroem-se por camadas. Cada geração acrescenta algo à anterior. Mas acrescentar não é apagar. Modernizar não significa sacrificar aquilo que nos distingue. Quando uma nova construção diminui visualmente um edifício histórico, todos perdemos um pouco da nossa identidade.
É por isso que receio que a discussão sobre um eventual risco de derrocada esteja, involuntariamente, a desviar a atenção da questão que permanecerá mesmo quando a obra estiver concluída e o terreno consolidado: a destruição da relação visual entre a cidade e uma das suas mais belas fachadas.
Esse impacto não desaparecerá com relatórios técnicos nem com o fim da empreitada. Ficará durante décadas.
O património não se perde apenas quando um edifício cai. Também se perde quando deixa de poder ser visto, admirado e compreendido no contexto para o qual foi pensado.
Os cartaxeiros que, como eu, tiveram o privilégio de frequentar aquela escola continuarão a lembrar-se da fachada que um dia dominou aquele espaço e da decisão que a condenou a ficar escondida atrás de um edifício que nunca deveria ter sido construído naquele local.
* Opinião de Ricardo Magalhães
Formado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, tem vindo a consolidar uma carreira marcada pelo rigor, capacidade de liderança e proximidade às pessoas. O seu percurso profissional distingue-se pela experiência em Inteligência Artificial aplicada aos setores da Indústria e Energia, bem como um forte envolvimento na vida comunitária e associativa do Cartaxo. Atualmente vereador na Câmara Municipal do Cartaxo desde 2025 pelo Partido Socialista, foi também deputado na Assembleia de Freguesia do Cartaxo e Vale da Pinta (2017-2021) e na Assembleia Municipal do Cartaxo (2021-2025).