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Opinião - Quando o tempo deixa de ser aliado

🕒 2026-09-03 11:02h


* Artigo de Opinião da Responsabilidade de - Cândido Napoleão Marques. Licenciado em Ciência Política e Mestre em Ciências Policiais.





Há palavras que não são apenas palavras. Há gestos que não são apenas gestos. E há momentos que, na política, não podem ser tratados como se fossem todos iguais.

O tempo também é uma categoria política.

Uma palavra pode ser prudência ou imprudência. Um gesto pode ser proximidade ou desrespeito. Uma resposta pode revelar autoridade ou denunciar inexperiência. Tudo depende do tempo. E, sobretudo, do contexto.

Foi isso que me ocorreu ao observar a recente visita do Ministro Dr. Luís Neves à Madeira, por ocasião das comemorações do 147.º aniversário do Comando Regional da Polícia de Segurança Pública. Vi três erros. E todos têm a mesma origem: não perceber o lugar, o momento e a função que se ocupa.

O primeiro foi institucional.

Um ministro não visita um território como quem chega a casa de amigos. Quando representa o Governo numa cerimónia oficial, não leva apenas consigo a sua personalidade. Leva consigo a autoridade do Estado.

E o Estado, mesmo quando é uma construção jurídica e abstrata, precisa de ser materializado por quem o representa: na postura, na linguagem, na contenção e na solenidade.

Não se pede a um ministro que seja sisudo. Pede-se-lhe que saiba quando pode ser informal e quando deve ser institucional.

A forma como Luís Neves circulou entre as pessoas, cumprimentou e se relacionou com os presentes transmitiu uma informalidade que poderia ser perfeitamente compreensível num casamento, num almoço de amigos ou num qualquer reencontro de circunstância. Mas aquele não era esse lugar. Era uma cerimónia da Polícia de Segurança Pública.

E a PSP não é uma instituição qualquer. É uma das faces mais visíveis do Estado perante o cidadão. É uma instituição com uma história de quase dois séculos, incumbida de proteger pessoas e bens, garantir a segurança, assegurar a legalidade democrática e proteger o exercício das liberdades fundamentais.

Uma instituição assim merece solenidade quando celebra a sua própria história.

O segundo erro foi político.

Luís Neves parece ter esquecido uma regra elementar da política: nem todas as provocações merecem resposta, e nem todos os lugares são apropriados para travar batalhas políticas.

A oposição existe para confrontar o Governo. Os jornalistas existem para questionar o poder. Os ministros existem para responder politicamente. Mas cada coisa tem o seu lugar. Uma cerimónia institucional não é um debate parlamentar. Uma celebração da PSP não é um comício. E um ministro, naquele momento, não estava ali apenas em nome de Luís Neves. Estava ali em nome do Governo e do Estado.

Responder à disputa política naquele momento significou permitir que uma cerimónia dedicada a uma instituição centenária fosse contaminada pela espuma da conjuntura. Um político experiente sabe que, por vezes, a melhor resposta é não responder. Sabe também que a dignidade de uma função exige que se escolha cuidadosamente o terreno onde se combate.

O terceiro erro foi o mais grave.

Foi dizer, naquele momento, “não me demito”. Aqui entra novamente o tempo.

Luís Neves não tinha obrigação de responder a todas as perguntas dos jornalistas. E muito menos tinha obrigação de aceitar a premissa de cada pergunta. O jornalismo político tem, muitas vezes, esta particularidade: a pergunta já contém a resposta que se procura. Uma pergunta transforma-se num comentário. O comentário transforma-se numa insinuação. A insinuação transforma-se numa conclusão. E o político, se não estiver atento, acaba a responder àquilo que nunca lhe perguntaram diretamente.

Foi o que aconteceu.

Porque quando um ministro diz publicamente “não me demito”, a frase não termina ali. Ela transporta várias mensagens.

Pode significar: o Primeiro-Ministro confia em mim.

Pode significar: não tomarei a iniciativa de sair.

Pode significar: se querem que eu saia, terão de ser outros a tomar essa decisão.

E pode ainda significar: há uma pressão política contra mim à qual não cederei.

É por isso que a política exige mais do que convicções.

Exige leitura do momento.

Luís Neves podia não querer demitir-se. É legítimo. Podia considerar injustas as críticas. É legítimo. Podia entender que existe uma campanha política contra si. É igualmente legítimo. Mas dizer isso numa cerimónia institucional, naquele contexto e perante aquelas circunstâncias, foi politicamente desnecessário e estrategicamente imprudente.

Porque, a partir daquele momento, a questão deixou de ser apenas a sua continuidade ou não.

Passou a ser a autoridade do Primeiro-Ministro. E isso muda tudo.

Luís Montenegro tem agora diante de si uma decisão que não é apenas sobre um ministro. É sobre a autoridade de quem governa. Com a pressão dos meios de comunicação social, da oposição e agora também da Presidência da República, o Primeiro-Ministro tem pela frente um daqueles momentos politicamente difíceis.

Porque a política tem uma crueldade particular: hoje somos notícia, amanhã somos arquivo.

Talvez tenha chegado o tempo de Luís Neves deixar de ser notícia para passar a ser arquivo.

Já o disse e volto a dizê-lo: não exijo uma República de Imaculados. Não defendo demissões automáticas apenas porque recaem sobre governantes notícias, suspeitas ou indícios que carecem ainda de esclarecimento. Um Estado de direito não pode ser governado pela manchete, nem a responsabilidade política pode ser confundida com uma condenação antecipada.

Mas há uma outra dimensão que não pode ser ignorada: a dimensão política dos danos causados pela reação de um governante.

E é aqui que a permanência de Luís Neves começa a suscitar uma questão diferente daquela que esteve na origem da polémica. O problema já não é apenas o que sobre ele se diz. É aquilo que ele próprio está a acrescentar à discussão.

A sucessão de declarações, confrontos e respostas reativas está a criar danos colaterais na imagem e no prestígio do Governo. E quando um ministro deixa de ser parte da solução para passar a ser, diariamente, parte do problema político do Governo que integra, a sua permanência deixa de ser apenas uma questão pessoal.

Passa a ser uma questão de eficácia governativa e de autoridade política.

Por isso, a decisão de permanecer, afirmada pelo próprio com tanta convicção, não me parece necessariamente a mais lógica.

Porque, em política, nem sempre a pergunta é “tenho razões para sair?”

Às vezes, a pergunta verdadeiramente importante é outra:

“A minha permanência ainda serve o Governo que represento?”

E essa é uma pergunta que não cabe ao ministro responder sozinho.


* Artigo de Opinião da Responsabilidade de - Cândido Napoleão Marques. Licenciado em Ciência Política e Mestre em Ciências Policiais.










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