Há uma imagem que talvez defina melhor o nosso tempo do que qualquer estatística: as ruas estão mais vazias de pessoas. Não necessariamente de trânsito, nem de carros, nem de ruído. De pessoas. Daquelas que saem de casa sem um destino muito preciso, que se encontram por acaso, que se sentam num café, que conversam num banco de jardim, que passam pela casa de um amigo sem terem combinado com três dias de antecedência.
Estamos cada vez menos uns com os outros. E o mais curioso é que não parece haver uma grande decisão colectiva por detrás disso. Foi acontecendo. Lentamente. Quase sem darmos conta. Fomos substituindo o encontro pela mensagem, a visita pela chamada, a conversa pela troca de áudios, a rua pelo sofá, a convivência pelo conforto de estarmos em casa.
Hoje podemos passar um dia inteiro sem precisar de sair para resolver quase nada. Trabalhamos em casa, compramos em casa, pedimos comida em casa, vemos filmes em casa, fazemos compras em casa e falamos com os outros sem que seja necessário encontrarmo-nos com eles.
A tecnologia facilitou-nos a vida. Talvez tenha facilitado demasiado. Porque uma sociedade não se constrói apenas através da comunicação. Constrói-se através da presença. E é aí que começa uma das grandes doenças silenciosas do século XXI: a solidão.
Não é uma doença reservada aos mais velhos. Está no quarto do adolescente que passa horas online, mas quase não sai com os amigos. Está no jovem adulto que vive numa cidade cheia, mas passa os fins-de-semana sozinho. Está no adulto que trabalha até tarde e já não tem energia para visitar ninguém. Está na pessoa idosa que vê os dias passar pela janela e percebe que as visitas se tornaram cada vez mais raras.
Mudam as idades, mudam as circunstâncias, mas há uma coisa em comum: estamos a perder o hábito de estar juntos. E talvez o mais preocupante seja que começámos a considerar isso normal.
Já não estranhamos passar semanas sem entrar na casa de um amigo. Já não achamos estranho saber mais da vida de alguém pelas redes sociais do que numa conversa frente a frente. Já não precisamos de uma razão para não sair: basta estarmos cansados.
Estamos cansados. E, muitas vezes, estamos sozinhos.
* * Opinião de Ricardo Magalhães
Formado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, tem vindo a consolidar uma carreira marcada pelo rigor, capacidade de liderança e proximidade às pessoas. O seu percurso profissional distingue-se pela experiência em Inteligência Artificial aplicada aos setores da Indústria e Energia, bem como um forte envolvimento na vida comunitária e associativa do Cartaxo. Atualmente vereador na Câmara Municipal do Cartaxo desde 2025 pelo Partido Socialista, foi também deputado na Assembleia de Freguesia do Cartaxo e Vale da Pinta (2017-2021) e na Assembleia Municipal do Cartaxo (2021-2025).